segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Desabafo.

Com frequência tenho sentido uma profunda dor no peito, uma grande indignação cada vez que presencio mãos postas nas janelas dos carros pedindo ajuda, mendigando um trocado, um pedaço de pão, pedindo socorro. Me pergunto se os governantes do nosso belo (e paradisíaco?) Município, do nosso sofrido Estado, do nosso tão rico País, não olham através das janelas de seus carros, se não vêem o desespero e a desesperança nos olhos de quem vive a vagar pelas ruas, sem rumo, sem ter um lugar para ficar, sem ter para onde voltar. Crianças de olhar perdido, desnutridas, barrigudas, já com tantas cicatrizes no corpo e na alma, entorpecidas por uma droga qualquer que lhes faça esquecer da fome, do abandono. Como não se solidarizar com a dor alheia? Como imaginar que voltaremos para uma casa de mesa farta e geladeira cheia, que teremos uma cama quente no final do dia e não pensar naqueles que ficaram do lado de fora privados de qualquer coisa que acalente, sem sentir um nó na garganta e o estômago revirado? Que culpa têm de terem nascido sem teto, sem espectativa? Mais uma vez me questiono se os senhores vereadores, deputados, chefes do Executivo, ao ter conhecimento e quem sabe até participação em desvios de verbas públicas, superfaturamento de obras, fraude à licitações, benesses e tantos outros favorecimentos gerados pelos cargos que ocupam não se sentem, nem que seja lá no fundo, mas lá no fundo mesmo de suas consciências, por uma fração de segundo, culpados por suas ações criminosas, por suas omissões escandalosas. De que matéria é feita esses homens que só pensam em ter mais, em ganhar mais, e só se esforçam para descobrir uma nova e impune forma de saquear os cofres públicos? E não importa o tamanho do prejuízo que geram, roubar pouco não significa que não é roubo, tirar o que é do outro é grave de qualquer maneira. Político que desvia verba da infra-estrutura não é menos ladrão que o assaltante de banco, político que desvia verba da saúde não é menos assassino que aquele que comete homicídio, político que desvia verba da educação não é menos culpado que aquele que abandona um incapaz, político que se utiliza do dinheiro público para se favorecer não é menos bandido que o estelionatário. Político corrupto é criminoso da mesma forma que todos aqueles os que cometem outros tipos de crime são, com o especial agravante de que sua conduta atinge centenas, milhares de pessoas! Porque cada vez que esses gestores da coisa pública atuam ou se omitem nesse sentido, é como se tirassem a comida do prato de uma família, como se negassem a chance de cura e o fim da dor daqueles que padecem de uma enfermidade sustentando-se (só Deus sabe com que forças) numa fila de um posto de saúde, no chão gelado de um corredor de hospital. É como tirar um lápis e uma cartilha das mãos de uma criança que jamais aprenderá o básico da educação que é ler e escrever. E talvez esse seja o pior do males, a ignorância. A ignorância também é uma forma de miséria, a raiz de todas as outras! O ignorante é feito de carência, conformismo e medo. Aos politiqueiros interessa manter as classes desfavorecidas desprovidas de educação e conhecimento, assim vão garantido o domínio de suas ideias. Privam o povo de saber de seus direitos e fazem com que este nem imagine que aqueles "doutores" de quem recebem um favor, um calçado ou um trocado no dia da eleição têm por DEVER (sim, DEVER!) atuar em favor do povo, e apenas do povo, garantindo-lhe o mínimo de dignidade! E dignidade é um prato (cheio) na mesa, é ter um médico que ouça e trate de suas dores, é ter um teto que abrigue quando a chuva chegar, é rua saneada e limpa, é segurança no caminho de casa, é criança na escola com carteira para sentar, livro para ler e professor para ensinar, é trabalho que garanta o pão de cada dia. Dignidade é esperança! Sofro pelos meus irmãos desesperançados, sofridos e enganados por quem lhes devia dar segurança e esperança... e rezo, rezo com todas as forças para que um dia eu possa olhar pela janela do meu carro e ver um mundo melhor.

5 comentários:

VÂNIA NOVAIS disse...

É a verdadeira realidade do nosso PAÍS! INFELIZMENTE!!!

Pedro Mesquita disse...

Invadindo minha praia ,né?! hahahaha... Gostei do texto, sintetiza bem a situação, esse é nosso País : Sem igualdade, má distribuição de renda. Não podemos deixar de nos indignar com isso, nos acomodar, a realidade é injusta e injustiça não é normal.

Morgana Novais disse...

Realmente, Pedro, você disse tudo: "A realidade é injusta e injustiça não é normal". Não nos acomodemos, discordar do que é errado é o primeiro passo. Consciência política é o segredo para o progresso do Brasil!

MARIANNE PIMENTEL disse...

E que aqueles que tiverem a oportunidade de ler, não apenas chorem, mas tragam da própria dor o desejo de fazer diferente. Parabéns não só pelo texto, prima, mas principalmente pela iniciativa!

Sabrina Utiama disse...

A mais pura realidade!